Todas as vezes que li uma biografia minha escrita por outra pessoa senti que algo faltava. Os fatos estavam ali, assim como tudo o que eu havia conquistado ao longo da minha vida, mas eu não me sentia plenamente ali. Talvez por acreditar que uma pessoa é também tudo aquilo que sente e não apenas tudo aquilo que faz. Muitas vezes fazemos tanto, mas nosso coração nem sempre está em tudo. É como se fizéssemos por que assim a vida nos ensinou a fazer. Enfim, as biografias que eu li refletiam os meus feitos, mas não os meus sentimentos e foi por isso que aceitei o desafio de escrevê-la e falar sobre o que sinto e sobre quem sou.
Eu nasci em Patos de Minas, interior de Minas Gerais, e desde muito criança sempre quis ser uma artista. Era apaixonada por Regina Duarte e Eva Wilma, atrizes que me marcaram. Assistia às novelas e criava meus próprios personagens com os quais passava o tempo. Era uma deliciosa sensação. Na música adorava ouvir Raul Seixas. Um pouco mais crescida, perto da adolescência, imitava Gal Costa. Ouvia Elis Regina, Maria Bethânia, Elba Ramalho, Amelinha, Milton Nascimento, e bandas nacionais e internacionais como 14 Bis, Yes, Genesis e Supertramp.
Na minha adolescência cantei em festivais e pequenos shows. Fui chamada para fazer um teste na Ariola, mas naquele momento nada conspirava a meu favor. Precisei adiar meus planos e, depois de muito tempo, voltei a cantar em uma banda de baile da minha cidade. Também estudei canto lírico e popular durante dois anos, em Belo Horizonte, que fica a 400 km da cidade onde eu morava. A minha vontade de cantar era tão grande que essa distância não me impediu de fazer as aulas.
Fiz muitas coisas antes de ser cantora e compositora e me orgulho de todas elas, mas nada fiz com tanta alma, com tanta vontade. Minhas músicas refletem toda a minha história de vida. Nelas estão meus sentimentos, meus feitos, desejos, limites, buscas, contradições e posso dizer que continuarão refletindo por que só assim me sinto inteira, cantando, ainda que algumas músicas sejam de outros compositores, como aconteceu quando gravei o meu primeiro CD, Glaucia Nasser, em 2002 com canções de Anísio Dias, e no segundo também, com músicas de diversos compositores.
Quando gravei esse primeiro CD eu não tinha a menor idéia dos caminhos que deveria seguir para ser uma cantora de sucesso. Tudo era muito novo pra mim, mas alguns fatos como o convite para participar da coletânea de MPB Acoustic Brazil e em seguida o convite para participar da trilha sonora do filme The visitor, sinalizaram pra mim que este era um sonho possível e coloquei o pé na estrada, definitivamente.
Durante essa caminhada, outro fato marcante foi receber do Serginho de Carvalho um CD com uma música do Ivan Lins e Celso Viáfora, inédita e cantada pelo Ivan em piano e voz, composta para mim. Foi uma emoção muito grande receber de presente uma música inédita de um compositor do qual sempre fui fã. Foi essa canção que deu nome ao meu segundo CD, Bem Demais, em 2006. Além da música do Ivan, esse disco me trouxe outras alegrias, entre elas a oportunidade de regravar Balanço Zona Sul, de Tito Madi e gravar um samba inédito, Pretensão, de Paulinho da Viola.











